quarta-feira, 22 de junho de 2011

João e Maria




Às vezes a gente entra em um buraco tão negro que só percebe a profundidade depois que sai de lá.
Não devo dizer que não sabia, apenas que não acreditava mais existir vida fora dele. Mesmo uma das minhas músicas preferidas dizendo “Mas é claro que o sol vai voltar amanhã mais uma vez, eu sei!”, saber é tão pequeno quando não se acredita que se torna um verbo inalcançável, quase inexistente. Eu não costumo abandonar a esperança na primeira esquina, mas o fato é que eu nem lembrava mais onde havia deixado. Não existia trilha no caminho, talvez João e Maria tenham se perdido para sempre nessa história. O fato é que a casa de doces era mesmo amarga demais para ser boa morada. Chocolates, pirulitos, balinhas e sorvetes eram válvulas de escape muito sedutoras, capazes de deixar qualquer bruxa farta de felicidade. Maria se perdeu de João, que passou a acreditar que ele a havia abandonado, e mesmo encontrando Pedro, Matheus e Gabriel não acreditava em mais ninguém. Vagou muito tempo com os seus únicos companheiros, os doces, que pareciam preencher e compreender o seu vazio. Maria se acostumou com a vida dessa forma, rumo a uma estrada cada vez mais sozinha e auto-suficiente, não precisava de ninguém. Um dia Maria acordou com uma luz muito intensa machucando seus olhos e resolveu procurar de onde ela vinha... Caminhou em direção a ela e encontrou uma casinha. Percebeu que a luz vinha da janela e resolveu entrar sem bater. Lá encontrou estantes com muitos livros. Ela gostava tanto de ler! Mas também havia se esquecido, mal sabia qual havia sido o último. Ao tentar alcançar um que lhe chamara a atenção na última estante, se desequilibrou quando um deles caiu bem em cima da sua cabeça. Era um livro chamado “Karma”. Lembrou que em outras épocas havia se interessado por esse assunto, mas não sabia ao certo do que se tratava. Devorou as páginas que pareciam saber de todos os detalhes de sua vida até aquele momento, como se pudesse explicar todos os seus passos nas entrelinhas e responder a todas as perguntas que ela havia cansado de fazer em voz alta, por nunca obter resposta. Muito emocionada com todas aquelas palavras, resolveu escolher alguns títulos para levar com ela, uma pessoa que tinha tantos livros não sentiria falta. Quando estava se retirando ouviu um barulho e resolveu se apressar.
“- Maria?”

Assustada, olhou na direção da voz que havia lhe chamado pelo nome:

“- João? Onde você estava esse tempo todo?”

“- Ao seu lado. Eu sempre vou estar ao seu lado. A nossa história não acabou aqui. Também não me perdi para sempre, apenas tive que mudar de endereço”.

“- Por que, João? Por que fez isso comigo?”

“- Porque você precisava se encontrar”.

Maria chorou copiosamente ao ver que não via mais ninguém ali.

Foi quando juntou os livros para sair de lá e escutou uma voz dizer:

“- Volte para casa, sua mãe precisa de você. Não precisa acreditar em ninguém se não quiser, mas jamais vai conseguir terminar essa história sozinha.”

Maria voltou para casa como se nunca tivesse esquecido o caminho, beijou a face de sua mãe e entendeu que ao lado dela era o seu lugar. Ainda não sabia exatamente que horas o sol voltaria a brilhar, mas não importava mais quem ia acompanhar, Pedro, Matheus ou Gabriel, quem fosse, saberia esperar.



2 comentários:

Léo disse...

Eu sou muito visual, todas as vezes que eu leio uma coisa tento visualizar o que está sendo descrito, e isso me ajuda a compreender o que está sendo contado. E ao ler esse texto vi uma Maria linda e ruiva... rsrsrsrs Vi João também, como um verdadeiro fiel escudeiro de Maria, mesmo que Maria não soubesse de sua companhia. Mas eu gostaria de chamar a atenção par ao “karma”, geralmente associamos o karma como uma coisa ruim que temos de passar. E nem sempre é assim... Outra coisa legal foi o reencontro. Torço para que as pessoas tenham a oportunidade de ter esse reencontro consigo mesmo. É muito bom... Obrigado pelo texto... Bjs

Líu Brito disse...

Belas palavras minha querida. Encontrar a nós mesmos pode ser uma descoberta maravilhosa, mas é preciso muita coragem para desvendar nossos próprios mistérios. O fato é que somos sempre nossas melhores companheiras de viagem, afinal, o que os outros vêem em nós, é apenas um reflexo do que nós mesmas vemos.
Escrever é como ver nosso próprio reflexo de forma mais ordenada e sempre nos ajuda a arrumar a bagunça que fazemos durante a viagem.
Sobre o "Karma", acredito que nosso "Objetivo" maior nesta vida é evoluir e ser feliz. Bom caminho pra você. bjus e obrigada por vc existir.